segunda-feira, 30 de maio de 2011

Mitologia nagô; orixás, ancestrais e a natureza.

     Séculos de opressão cristianizadora (1) e submissão ao trabalho escravo, sob as mais duras e degradantes condições, impediram por longo tempo, no Brasil, a recriação dos cultos aos deuses bantos e ocasionaram a fragmentação de suas mitologias. Assim, no alvorecer do século XX, nos terreiros de umbanda, são os elementos mitológicos nagôs, razoavelmente preservados, que dão o conceito e as características do orixá. Algumas dessas características, percebidas sem a devida contextualização, induzem o observador a considerar o orixá uma personalidade humana elevada à categoria de super-homem, pois, o orixá tem origens divinas, segundo os mitos, mas é capaz de invejar, mentir, odiar e armar emboscadas.
   O comportamento mitológico dos deuses africanos, tão dissonante da austeridade espírita, somado a influência das teorias de Nina Rodrigues sobre a inferioridade mental e a propensão à criminalidade de negros e mestiços (2), muito presentes na sociedade da época, leva, nos terreiros fundados por membros da classe média urbana oriunda dos centros espíritas, à diluição ou a substituição das tradições, costumes e ritos banto-ameríndios, pela doutrina espírita e por fundamentos teosóficos (3).
    O que teria contribuído para a construção de personagens mitológicos tão humanos? Seria a incapacidade mental do negro africano de elaborar conceitos mais abstratos, defendida por Nina Rodrigues?
     Não. Entendemos que a humanização mitológica das divindades se deu por conta de uma peculiaridade das culturas antigas, a utilização do mito como instrumento de preservação da memória.        
    Através dos mitos, os feitos dos reis e heróis passavam de geração para geração. Sendo esses ancestrais, para o povo, descendentes, representantes ou  a manifestação, no plano físico, das próprias divindades, não surpreende que, na construção dos mitos, elas apresentem aspectos da personalidade ancestral: Olufiran, quarto rei da antiga cidade nigeriana de Oyó, após sua morte, torna-se objeto de veneração; os eventos considerados notáveis em sua vida são mitificados, e com eles aspectos de sua personalidade. Também suas esposas prediletas, princesas reais, são elevadas ao universo mitológico; é o caso de Oyá que, historicamente, teria sido princesa da cidade de Irá, na região nupê (4).
     Outro fator que contribuiu para a humanização dos orixás são os contos educativos, nos quais os orixás são colocados em situações do cotidiano humano para educar e passar valores morais. Cumpriam esses contos, para os nagôs, o mesmo papel que as fábulas em outras culturas.
         Por fim, não podemos esquecer a mitificação dos fenômenos naturais e seus efeitos, em certos mitos  apresentados como instrumento de  vingança e punição do orixá ou como a própria divindade: Fosse uma cidade destruída pela tempestade, a catástrofe seria, de acordo com a narrativa mitológica, uma ação direta de Oyá, o que tem levado muitos a defenderem que os orixás seriam forças da natureza divinizadas (5).
     Divindades primordiais, ancestrais, forças da natureza; mitologicamente os orixás são tudo isso e muito mais. Movendo-se por todos os compartimentos da existência nagô, são eles que lhe dão unidade sistêmica.  Porém, no contexto de nossos tópicos, destacaremos o que realmente nos interessa: divindades que representam os atributos de Olorun (6) e são canais para a manifestação das energias que criaram e mantém o universo.        

Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira lemos.

Notas.

(1) A partir de 1491 populações dos atuais Congo, Zaire e Angola passam a sofrer violenta opressão cristianizadora (Nei Lopes; Bantos, Males e a identidade negra).

(2) Teorias de Nina Rodrigues: médico e antropólogo, Nina acreditava na inferioridade mental de negros e mestiços e na sua propensão ao crime e às doenças.
      
(3) Teosófico: de teosofia. Teosofia ou sabedoria divina é uma doutrina esotérica que pretende sintetizar filosofia, religião e ciência. Helena Blavatsky (1831/1891) foi o maior expoente da teosofia, fundando em 1875, com Henry Steel Olcott, em Nova York, a famosa Sociedade Teosófica.

(4 Nupê: grupo africano que falava língua do mesmo nome (nupê). Os nupês habitavam regiões ao norte da Nigéria.

(5) Os fenômenos naturais não aparecem nos mitos apenas como intrumentos de punição e vingança da divindade, mas como uma extensão do seu poder ou como o próprio orixá: os raios caindo sobre uma lagoa poderiam ser descritos poeticamente como uma disputa entre Oyá e Nanã.

(6) Olorun: divindade suprema dos nagôs correspondente ao Nzambi dos bantos.

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