Em meados dos anos setenta, no século XX, surge a versão da fundação da umbanda no dia 15/11/1908, quando, através do médium Zélio de Moraes, um Caboclo, chamado Das Sete Encruzilhadas, teria se manifestado na Federação Espírita de Niterói (1) para anunciar a nova religião. Na mesma época, outros acreditavam que a umbanda seria uma variação, mais simples, dos tradicionais candomblés baianos ou uma “perna” do espiritismo, um espiritismo popular, rústico, sem base doutrinária e com a presença de elementos ritualísticos afro-brasileiros. Nas últimas décadas, entretanto, pesquisas realizadas em documentos históricos, como processos da santa inquisição, apontam para uma origem muito mais antiga. A umbanda seria herdeira de uma cultura religiosa banto-ameríndia que nasce do encontro dos sacerdotes mágico-medicinais bantos (2) com os pajés ameríndios. Aqueles necessitando conhecer ervas, folhas e outros elementos da farmacopéia natural brasileira, para assegurar a continuidade de suas práticas, recorrem a estes e, do encontro, surge um sagrado comum, um sagrado banto-ameríndio e dele vários cultos populares, dentre eles a umbanda.
Os cultos surgidos no Brasil a partir desse universo banto-ameríndio, embora tivessem cada um suas especificidades, apresentavam uma característica comum; a prática daquilo que os angolas denominavam umbanda, a “arte de curar”. No século XVII os praticantes dessa arte atuavam por todo nosso país e, em que pese preconceitos e perseguições, chegavam mesmo a atingir grande fama, tanto entre seus pares quanto entre a população branca. O que é bastante compreensivo, já que a precariedade ou a inexistência de assistência médica, no interior e mesmo nos centros mais urbanizados, era um grande problema para a população.
Considerando que os negros sudaneses (3) que recriaram o culto aos seus deuses no Brasil, aqui só começam a chegar em fins do século XVIII, e que o espiritismo, por sua vez, só em fins do século XIX, tivemos mais ou menos duzentos anos de desenvolvimento de uma cultura religiosa banto-ameríndia que precedeu aos candomblés e ao espiritismo. É bem verdade que os cultos banto-ameríndios não eram organizados ou estruturados como os templos convento (candomblés) que seriam criados pelos sudaneses, mas ao redor dos mestres praticantes da “arte de curar” formavam-se grupos de auxiliares e discípulos, pequenos grupos religiosos, modelo que até os anos setenta (século XX) era muito comum no Rio de Janeiro.
A cultura religiosa banto-ameríndia, reconhecemos, não deixou de incorporar elementos dos candomblés, do espiritismo e do catolicismo. Afinal, sabemos que a incorporação de tudo o que se acreditava trazer benefícios, poder, para o indivíduo e sua comunidade, era um traço marcante nas culturas africanas; certamente os bantos no Brasil não perderiam esse traço. Eles não empobreceram sua “arte de curar”, como querem alguns. Eles a enriqueceram com o saber indígena e essa união, com contribuições de outras culturas africanas e a do colonizador, gerou uma filha de beleza e personalidade próprias, a Umbanda.
Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.
Notas.
(1) Pesquisa feita na Federação Espírita de Niterói, pelo professor José Henrique Motta de Oliveira, mestre em história comparada (UFRJ), constatou, através do livro de atas da Federação, que, naquela data, não houve a reunião mencionada na versão da fundação da umbanda em 15/11/1908.
Outros pesquisadores, buscando registros históricos que apoiassem a versão, também não os encontraram. Os únicos registros existentes são depoimentos do próprio Zélio ou de seus colaboradores.
Destacam, ainda, os estudiosos que, nos anais do Primeiro Congresso Brasileiro de Espiritismo de Umbanda (1941), organizado pela Federação Espírita de Umbanda, fundada (1939) e presidida por Zélio de Moraes, não há nenhuma referência aos acontecimentos que teriam ocorrido no dia 15/11/1908.
(2) Bantos, ou bantus, é o nome dado aos negros de um grande grupo etnolingüístico a que pertenciam os escravos chamados angolas, congos, moçambiques, cabindas e outros. Eles habitavam uma imensa região que ia do atual Camarões ao sul do continente.
(3) Os sudaneses trazidos ao Brasil pela escravidão habitavam regiões da África Ocidental, mais especificamente regiões das atuais República Popular do Benin e Nigéria. A esse grupo pertenciam os negros iorubás, aqui denominados nagôs, e os jejes.
Homenagem póstuma: Neste dia e mês (16/05) nascia, há muitos anos, no Rio de Janeiro, Lygia da Silva Bastos, que viria a ser uma das mais queridas Zeladoras de Umbanda no bairro de Madureira. Sua grandeza só não era maior do que sua dedicação e simplicidade. Eu, Priscila e todos os que passaram pela Seara de Oxalá, jamais a esqueceremos.
Saudades de "Dona Lili".
Homenagem póstuma: Neste dia e mês (16/05) nascia, há muitos anos, no Rio de Janeiro, Lygia da Silva Bastos, que viria a ser uma das mais queridas Zeladoras de Umbanda no bairro de Madureira. Sua grandeza só não era maior do que sua dedicação e simplicidade. Eu, Priscila e todos os que passaram pela Seara de Oxalá, jamais a esqueceremos.
Saudades de "Dona Lili".
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