A presença, nos cultos banto-ameríndios, das imagens dos santos católicos foi uma estratégia de sobrevivência cultural utilizada pelos negros africanos e seus descendentes. Induzir o clero e os senhores de escravos a acreditarem que, enquanto festejavam seus deuses, estariam na verdade festejando os santos católicos à moda africana, lhes garantia a tolerância da sociedade. Mesmo após a abolição da escravatura, até a metade do século XX, essa estratégia foi mantida pelos cultos banto-ameríndios e demais cultos afro-brasileiros para tentar escapar a perseguição das autoridades constituídas. Assim, quando membros da classe média urbana, geralmente oriundos do espiritismo e criados em famílias católicas, se aproximam dos terreiros cariocas, nas primeiras décadas do século XX, seu entendimento não é muito diferente da visão que tinham o clero e a sociedade, nos séculos anteriores, de maneira que ao fundar suas "tendas espíritas de umbanda", nelas o que era para o negro escravo uma estratégia de sobrevivência torna-se a crença corrente: os orixás (1) não são mais as divindades de origem africana, mas os mártires da igreja, espíritos humanos de "muita luz" que enviam seus mensageiros, os guias espirituais, ao plano físico, para aconselhar, atender às necessidades dos crentes e pregar a doutrina codificada por Kardec. Afinal, os espíritas umbandistas da classe média urbana adotaram elementos do universo religioso banto-ameríndio por considerarem suas práticas mais dinâmicas e seus resultados mais efetivos, não por discordarem da doutrina espírita.
O que provavelmente, também, muito contribuiu para o equívoco dos neo-umbandistas, foi encontrar nos terreiros banto-amenríndos uma profunda devoção aos santos católicos: se a presença deles no congá era apenas uma estratégia, os santos católicos, por outro lado, eram respeitados e venerados. Nada que se deva estranhar, já que nossos ancestrais africanos tinham, como traço cultural, o costume de incorporar tudo aquilo que pudesse trazer axé (2) pessoal e comunitário. Não foi diferente em relação ao catolicismo popular português, e com ele as imagens bentas, simpatias, bentinhos, breves, água benta e novenas, se integram ao universo banto-ameríndio. Entretanto, Ogun e São Jorge, Xangô e São Jerônimo, Iansã e Santa Bárbara, não eram confundidos uns com os outros; orixá era orixá, santo era santo.
Estudando os critérios de escolha usados pelos negros africanos na determinação de que santo católico mascararia o culto a este ou aquele orixá, fica muito evidente a superficialidade e a fragilidade do que passou a ser conhecido como sincretismo afro-católico; o leão e a pedra, nas representações de São Jerônimo, determinaram que o santo católico fosse a camuflagem para o culto a Xangô, o orixá rei da cidade de Oyó (3), haja vista que, o leão era um símbolo das realezas africanas, e a pedra o instrumento de punição (aplicação da justiça) utilizado pelo orixá. Da mesma forma, nada, afora as flechas no corpo do santo, aproxima São Sebastião de Oxóssi, o orixá caçador. A mesma superficialidade é encontrada na relação entre os demais santos e orixás.
A diversidade nos critérios de escolha, de região para região, é outro indicador da ausência de maior conteúdo, de fundamentos: São Jorge, no Rio de Janeiro, foi escolhido para mascarar o culto a Ogun; na Bahia Santo Antônio foi o escolhido. O mesmo São Jorge, Ogun no Rio de Janeiro, é Oxóssi na Bahia, orixá que no Rio foi sincretizado com São Sebastião. Essa diversidade, se levarmos em consideração, além do Rio de Janeiro e Bahia, os demais estados da federação e outros países onde se desenvolveram cultos de origem africana, é ainda muito maior.
Por mais que o chamado "espiritismo de umbanda" tenha executado verdadeiros "malabarismos" para encontrar fundamentos e justificar o equívoco de seus fundadores, como sabiam os antigos praticantes da "arte de curar", "Ogun é Ogun e São Jorge é São Jorge". Orixás e Santos católicos fazem parte da tradição umbandista mas não se confundem, ou não deveriam se confundir.
Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.
Notas.
(1) Orixá: vocábulo iorubá que, no Brasil, tem sido empregado para designar divindades de qualquer culto afro-brasileiro. Entre os bantos as divindades eram os inquices, para os jejes eram os voduns.
(2) Axé: vocábulo iorubá que significa força, energia, poder de realização.
(3) Oyó: antiga cidade Nigeriana.
(2) Axé: vocábulo iorubá que significa força, energia, poder de realização.
(3) Oyó: antiga cidade Nigeriana.
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