sexta-feira, 15 de julho de 2011

Xangô, a Lei que nos rege.


     Antes da criação do universo (s) tudo o que existe e virá a existir já estava concebido na mente divina, inclusive as leis que regem a evolução cósmica; Xangô é a Lei, seu machado o símbolo de sua justiça: "Ele fere e corta, vivo como o relâmpago, com ruído e, às vezes, soltando  faísca. Por isso talvez, em todas as culturas, vem associado ao raio... Entre os maias, no mundo ameríndio contemporâneo, entre os celtas, na China dos T'ang, é chamado de pedra-de-raio. Diz-se que caiu do céu (Dicionário de Símbolos - Jean Chevalier & Alain Gheerbrant - editora José Olympio)".
     Embora comumente associemos Xangô às leis morais, à ética e à fonte de inspiração dos códigos e doutrinas da humanidade, o poder do orixá, a Lei, se estende aos vários compartimentos da existência, por exemplo, à biologia, à física e à química: quando dois átomos de hidrogênio se combinam com um de oxigênio, é a Lei; quando de uma gigantesca nuvem de gás e poeira cósmica (nebulosa) nasce um sistema solar, é a Lei. Ela é energia, não apenas rege como permeia, está ativa em toda a criação.
     A Lei que rege a evolução cósmica, bem como os arquétipos, os moldes das formas que encontramos nos planos mais densos da criação, está presente nos níveis mais elevados da mente divina, foi lá que o grande arquiteto do universo idealizou sua obra e é lá que Xangô, o canal da Lei Divina, tem sua morada (“dizem que Xangô mora na pedreira, mas não é lá sua morada verdadeira...”, cantam os umbandistas).
     O machado de Xangô, o oxé, é duplo, agregando ao símbolo da justiça equilíbrio, igualdade e perfeição. O oxé nos lembra que não estamos diante de uma lei qualquer, mas da Lei Divina, Lei de Olorun (Zambi), Lei que jamais conseguiremos alterar, pois, a Lei Divina é como uma bola de borracha que, por mais que exerçamos pressão sobre ela, sempre retornará à forma original. 
       A borracha tem essa propriedade física, denominada resilência, a Lei também é resilente. Não adianta tentar alterá-la ou escapar de sua ação, ela está em cada um de nós; não é um orixá sentado em um trono no além que nos pune lançando pedras-de-raio sobre nossas cabeças. A Lei é energia que está em tudo, é Ela, o xangô em mim, que me rege e  "pune".
    

                                  "Deus é a lei e o legislador do Universo".
                                                   (Albert Einstein)


Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Ogun, direção e ordem.



     Ogun é a vontade divina que direciona e mantém toda a ordem cósmica. É o intuito que não pode ser detido ou mudado, sendo representado nos mitos como um guerreiro invencível e impiedoso, sempre na linha de frente dos combates, sempre à frente, uma característica já destacada nos mitos da criação; quando Olorun enviou os orixás para criar a terra, foi Ogun que, com seus facões, veio na dianteira do grupo divino dando a direção e abrindo o caminho. Por isso ele é conhecido como “asiwaju”, aquele que toma ou vem à frente e, nos xirês (1), é o primeiro a ser saudado.
     Ogun é considerado irmão de Exu, algumas vezes com este confundido. Estão sempre muito próximos, caminham lado a lado, afinal Exu é o princípio da expansão e Ogun a força que lhe dá a direção. Uma imagem adequada para entendermos a relação Ogun/Exu é a carruagem, um símbolo da consciência; Os cavalos são nossos sentidos, o carro a mente e o condutor nosso eu interior. O orixá guerreiro é a vontade que dirige o carro, controla os cavalos, Exu é a força que os move.
     Entre os nagôs, excetuando-se os ketus (2), Ogun, além de orixá guerreiro, é o caçador divino e também o ferreiro sagrado que ensinou os homens a fabricar e manejar os instrumentos de caça e pesca, assim como as armas e as ferramentas agrícolas. Teria sido como personagem histórico um herói civilizador filho do fundador da primeira cidade iorubana, Ilê Ifé, centro espiritual de todo império nagô.
    Não é de admirar que esse orixá, associado não só à ordem da evolução cósmica, mas a toda evolução e ao progresso humano, tenha sido, e ainda seja, juntamente com Exu, a divindade mais cultuada em África. Afinal, Exu é o combustível que move o universo e Ogun o condutor de todo o movimento.
     Ogun é um personagem mitológico muito mais complexo e abrangente do que puderam perceber os membros da classe média urbana que, no século XX, fundam os chamados “centros de espiritismo de umbanda”, limitaram-no ao vencedor de demandas, ao guerreiro do céu, ao general de umbanda, sem aprofundamento do que isso significaria. Não que a luta contra o mal, especialmente a luta de cada um contra seus próprios demônios não seja importante, ela é, e estar amparado por Ogun é fundamental para vencermos tal embate. Contudo, o campo de ação desse orixá é muito maior do que isso, de sua força depende todo e qualquer processo evolutivo, seja no mundo espiritual ou material. Ogun, em nossos dias, além de orixá da guerra, das artes marciais, da caça, da pesca, da agricultura, dos serviços manuais, é o senhor da tecnologia; Sem Exu nada poderá ser iniciado, sem Ogun nenhum processo será concluído.

Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.

Notas.

(1) Xirê: a tradução seria festejar, brincar. Nos candomblés é ordem dos canticos e das danças celebrativas e invocativas dos orixás.

(2) Oxóssi é o orixá caçador e rei dos Ketus.