sexta-feira, 24 de junho de 2011

Exu, o elemento dinâmico.

    

 Exu, vocábulo iorubá, significa esfera, símbolo do que não tem princípio e nem fim, do movimento constante. A esfera contém os mesmos significados do círculo que é um ponto estendido. Ela pode representar tanto às potências que estão ocultas nos ponto primordial quanto às manifestações dessas potências em todo o universo (s) criado.
     Exu, fruto da união divina (Oxalá/Nanã) é o movimento, a expansão cósmica ou, se preferirmos, o elemento dinâmico que move todo processo evolutivo e garante sua continuidade. O okotô, um dos principais símbolos de Exu, caracol cuja estrutura óssea se desenvolve espiraladamente, representa essa expansão.
     Nos mitos Exu é o mensageiro dos orixás, a boca que fala por eles. O Mercúrio (1) nagô carrega consigo um macete de madeira escura, o ogó, que tem a capacidade de transportá-lo velozmente a qualquer ponto do universo. Ele é Ojixé, mensageiro e transportador das oferendas. Nada chega aos orixás ou deles nos chega sem a intervenção de Exu; “sem Exu nada se faz”. É também Elegbará, o senhor, o dono da força. Na verdade, ele é a própria força (axé), sem a qual nada existiria. Seria impossível a existência individualizada sem a ação do elemento dinâmico, cuja função de agente da multiplicidade e da multiplicação (reprodução) é ressaltada pela presença de órgãos genitais nas imagens, por isso demonizado pelos missionários cristãos.
     Nos terreiros nenhum rito, preceito ou cerimônia pode acontecer sem o elemento dinâmico (Exu). Mesmo que implícita ou inconscientemente, nos cultos mais distantes das tradições africanas, Exu é sempre lembrado antes de todo início. Esquecê-lo é impossibilitar a ação, o progresso.
      Exu é um orixá único. Enquanto as demais divindades são canais para a manifestação das energias divinas, ele é a própria energia, o axé. Não por outro motivo, em alguns terreiros tradicionais, Exu não provoca transe possessório. Acredita-se que nenhum ser humano suportaria a vibração direta de uma energia tão pura. Normalmente é Ogun, seu irmão mitológico, quem o representa (2).
      Os exus de umbanda, as entidades espirituais mais próximas do plano de existência humana, o plano físico, receberam esse nome exatamente por, de certa forma, desempenhar a atividade de mensageiros, como o orixá Exu nos mitos nagôs. Não são, como deturpadamente acreditam alguns, escravos dos orixás; são, por sua possibilidade de intensa sintonia com o plano dos homens, o elo forte entre o mundo material e o espiritual.
     Exu orixá é, pois, o princípio de toda existência manifesta, dos elementos criados, da multiplicidade, da diversidade e garantia das individualidades. Nada existiria sem o "seu exu", a força em todos e em cada um, a força que assegura aquilo que é e o que virá a ser. 

Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.

Notas.

(1) Mercúrio, divindade romana, correspondia ao Hermes dos gregos; era o mensageiro e interprete divino. Seu nome deriva de “merx”, mercadoria, comércio, visto que, Mercúrio, era também a divindade dos mercados e dos mercadores, assim como Exu.
     Mercúrio recebia nas encruzilhadas, tal qual o mensageiro nagô, em pequenos altares, o que lhe era oferendado.

(2) Em terreiros mais tradicionais Ogun representa Exu ou acompanha as manifestações do mensageiro, nas casas em que elas ocorrem.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Nanã, a grande mãe.



     Nanã é a mais antiga das iabás (1), seu culto parece remontar à pré-história, à idade da pedra, o que mitologicamente se apresenta como uma oposição ferrenha ao orixá Ogun, representante da idade do ferro.
     Em algumas regiões jeje, atual República Popular do Benin, Nanã ocupava o lugar de divindade suprema, correspondendo ao Olorun dos nagôs e ao Zambi dos bantos. Quando é incorporada ao panteão nagô, essa antiga e complexa divindade, ocupa lugar destacado, rivaliza com Odudua e Iemanjá, consideradas, dependendo da região nagô, a representação do feminino cósmico. No Brasil Nanã é a suprema manifestação do feminino, do poder gestante, compondo com Oxalá o casal divino que gera toda a criação.
     Nanã é a lama, o barro fecundado (por Oxalá, a consciência divina) donde vem todas as coisas criadas e para a qual todas retornarão após a "morte". A forte relação de Nanã com a vida e, acentuadamente, com a morte, faz de Nanã um orixá complexo e muito respeitado, muitas vezes temido. A tal ponto chegou o respeito e o temor a Nanã que muitos sacerdotes evitavam iniciar filhos de Nanã Buruque, acreditando que qualquer falha na iniciação poderia acarretar como castigo, para eles, a morte definitiva (2).
    Atribuísse à Nanã e seu filho Ómolu/Obaluaiê o controle de todo processo reencarnatório. Nanã é o São Pedro umbandista, é ela que guarda as chaves do céu, ou seja, do portal entre o mundo dos espíritos e dos encarnados. A relação de Nanã e seu filho Omolu/Obaluiaiê com a vida e a morte, com seus descendentes, especialmente os ancestrais, é profunda e misteriosa, sendo simbolicamente expressa pelos búzios e pelo feixe de nervuras do dendezeiro que compõe o seu cajado ritual, o ibiri.
    No ibiri (3) os búzios representam tanto a vida quanto a morte; sua semelhança a um órgão genital feminino o habilita a significar reprodução e nascimento, o seu vazio, a ausência dos moluscos (de vida), nos lembra a morte. A própria saudação ao orixá, Saluba Nanã Buruque (Sálù bá Nàná Burúkú), expressa a relação de Nanã com a morte e o respeito de seus filhos: não literalmente seria, "Nanã nos proteja da morte ruim", o que equivale a "Nanã nos dê uma boa morte".
    Aos mais identificados com o esoterismo diríamos que estamos diante da Ísis nagô, ou que, mais corretamente, Ísis seria a Nanã dos egípcios, já que culto à deusa africana precede ao da deusa egípcia.
    Senhora dos pântanos, das águas paradas, origem da vida, é também a dona de todos os mistérios da morte. Para os umbandistas é a querida Vovó, a mais antiga e sábia dentre as matriarcas, despertando grande respeito e carinho. De Nanã viemos, a Ela retornaremos e Dela renasceremos. 
     “Nanã é a terra úmida, portanto a terra irrigada e pronta para gerar. Terra útero, mistério e magia da continuidade da raça humana, considerada matrona da agricultura e da fertilidade dos grãos que nela caem, desenvolvem, crescem, morrem e voltam para a terra quando são absorvidos e renascem em outro grão. Também relacionada com a morte, pois é na terra que os mortos são enterrados, sendo assim, a Vovó indica-nos os renascimentos e continuidade da raça ou do clã familiar”.
    (O coletivo feminino na cosmogonia do Universo – Yaskara Manzine).

Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.

Notas.

(1) Iabá: matrona, venerável senhora. 

(2) Morte definitiva: Os orixás funfun teriam o poder de fazer a essência espiritual retornar a massa original e, definitivamente, não mais reencarnar.

(3) Ibiri: principal símbolo de Nanã. Segundo Juana Elbein dos Santos (Os Nagô e a Morte) seria a contração de uma frase em iroubá que em português significaria: "meu descendente o encontrou e trouxe-o de volta para mim". De acordo com os mitos o Ibiri teria nascido juntamente com Nanã. Os búzios e as nervuras do dendezeiro representam as almas ancestrais.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Oxalá, o grande orixá da criação.

  
                             

          Oxalá é a consciência de Olorun criando e se manifestando nos planos mais densos. Nos homens ela é conhecida como o espírito imortal, a centelha ou partícula divina que, através das reencarnações, desperta, se aprimora e marcha de volta, autoconsciente, ao seio de Olorun. Ele é o grande orixá funfun, vocábulo iorubá que significa branco, a cor branca. Seu sentido metafísico, entretanto, é mais abrangente, funfun são os orixás originados diretamente de Olorun. Os funfun antecedem à existência dinâmica e individualizada, ou seja, já existiam antes da manifestação do universo(s). São detentores do poder da criação e estão relacionados à pureza, retidão, paz e aos valores mais nobres. O ar (1), um símbolo da pura energia espiritual, que não vemos e não é tangível, mas é fundamental para nossa existência na terra, é o elemento que representa os funfun.        
     O opaxorô, seu cajado ritual, uma haste de metal branco que serve de eixo para, normalmente, três discos também de metal branco, é a representação da presença de Oxalá em todos os planos de existência; no divino, nos espirituais e no físico. Os balangandãs que pendem dos discos representam os elementos criados. O opaxorô ainda nos remete às três qualidades de poder que se manifestam através de Oxalá: a já referida consciência divina e os poderes dela gerados; o poder da essência, raiz de toda a matéria, e o elemento dinâmico, o axé, que impulsiona toda a evolução cósmica. É o Pai, o Filho e o Espírito Santo, da tradição judaico-cristã; é Brahma, o criador, Vishnu, o mantenedor e Shiva, o transformador, do hinduísmo; é Guaraci, Jaci e Rudá, da cosmogonia tupi.
     Na cosmogonia afro-brasileira esses poderes são personificados por Oxalá, poder gerador, Nanã, poder gestante e Exu, representação de todo elemento procriado, da multiplicidade, das existências individualizadas.
     A grandeza de Oxalá, na umbanda, sua condição de pai de toda a criação, de “deuses” e homens, levou a não incorporação de seus falangeiros nos terreiros; entende-se que as vibrações do grande orixá se manifestam através das entidades ligadas aos demais orixás, seus filhos, que são canais de seus atributos.
     A paternidade divina de Oxalá está alegórica e singelamente retratada em um mito nagô que narra como Oxalá, devido à inveja de alguns homens, vítima de uma emboscada, foi feito em pedaços e desses pedaços nascem os orixás. O vocábulo orixá, inclusive, seria a contração da frase Ohun ti a ri sà, em português “O Que foi achado e juntado” (2).
     Toda a evolução da consciência, em todos os reinos da natureza, está subordinada ao grande orixá. É o senhor do ciclo evolutivo do universos, cujo início é representado mitologicamente por Oxaguiã, Oxalá jovem e destemido, e por Oxalufã, personificação da maturidade, da calma e da sabedoria.

Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.


Notas.

(1) Embora o ar seja o elemento mais representativo dos orixás funfun, no mito da criação referenciado anteriormente, a água alí aparece como elemento masculino (fecundante).    

(2) Vide Òrun Àiyé (O Encontro de Dois Mundos), livro de José Beniste.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Breve comentário sobre os orixás.

     Os orixás são a expressão dos atributos de Olorun e Dele foram gerados. Os orixás denominados funfun, orixás do branco, foram diretamente criados por Olorun, os demais, orixás descendentes, nasceram das interações entre as energias emanadas dos funfun, aqueles que receberam o poder da criação.
     Oxalá é um dos mais conhecidos e importantes orixás do branco, entre os nagôs, em  África, juntamente com Odudua, outro funfun, que em muitos mitos aparece como sua contraparte feminina, é o responsável pela criação da terra e dos seres humanos (1). No Brasil, especialmente na umbanda, o lugar de Odudua, é ocupado por Nanã Buruque (2), que, juntamente com Oxalá e Exu (3), numa reelaboração da gênese nagô, compõe a trindade criadora. Por conta disso, ao reproduzirmos elementos da mitologia nagô, nestes, Nanã estará sendo referenciada no lugar de Odudua.
     Um dos mitos da criação da terra (4), dos mais conhecidos, assim se inicia:
    “No começo só existia Olorun, uma imensa e imóvel massa de ar. Olorun movimenta-se e do seu movimento nasce uma massa de água, é Oxalá. Olorun continua seu movimento soltando o seu sopro, e desse ar e da água  surge a lama. Da lama nasce uma bolha. Oxalá encantou-se com a beleza da bolha e soprando sobre ela fez nascer o primeiro ser criado, Exu Iangui".
    A imobilidade de Olorun representa o estado que antecede a criação, quando tudo existe apenas potencialmente em Deus. A massa de ar se move iniciando o processo de expansão e multiplicação a partir da unidade. É o “fiat lux” nagô: Oxalá, a água, é a consciência divina que fecundando a terra (5), matéria primordial, faz surgir à lama, da qual tudo e todos nascerão. O espírito se manifesta através das formas.
    Três orixás estão presentes no inicio do mito; Oxalá o poder gerador, Nanã (representada pela terra/lama), o poder gestante, e Exu, o elemento procriado. A partir da união entre Oxalá e Nanã (consciência e matéria raíz) que provoca a expansão universal (Exu), nascem os demais orixás, cada um representando um atributo divino: Ogun é a vontade divina que dá a direção e garante a ordem do processo evolutivo; Xangô é a lei que rege a evolução; Iemanjá é a vida divina que anima toda a criação; Oxum é a manifestação do amor divino e assim por diante.
     Julgamos conveniente, para uma análise comparativa, apresentar a visão hinduísta da gênese (6), que os intelectuais de umbanda julgaram infinitamente superior aos conceitos nagôs:
      "Na noite de Brahman, o Absoluto, as águas da Vida permanecem em Pralaya (repouso). O Absoluto É. Contudo vibra eternamente. Após 4.320.000.000 de anos solares, o Grande Cisne Hamsa (o Ser Consciência-Inteligência), desliza sobre O Grande Oceano da Vida, separando suas águas. O néctar separa-se das águas primordiais e surgem Purusha e Prakriti (consciência cósmica e substância raiz que formará todos os mundos). Purusha e Prakriti unem-se e o Universo inicia sua dança espiralada". 
      Acreditamos que a similitude entre as duas concepções dispensa comentários, entretanto, gostaríamos de chamar a atenção para "dança espiralada", na versão hinduísta, representando a expansão e a evolução cósmica, e Exu, na versão nagô, simbolizando o mesmo processo. Um dos símbolos mais importantes de Exu na cultura nagô é o okoto, espécie de caracol que Juana Elbein dos Santos (7) assim define:
      “O Òkòtó simboliza um processo de crescimento. O Òkòtó é o pião que apoiado na ponta do cone – um só pé, um ponto de apoio – rola “espiraladamente” abrindo-se a cada evolução, mais e mais, até converter-se numa circunferência aberta para o infinito (cume oco)". 
     Nossos estudos se basearão na reelaboração, no Brasil, dos mitos nagôs. Não viajaremos no tempo ou no espaço para a Lemúria, Atlântida, Índia, Grécia antiga ou até escolas iniciáticas do esoterismo europeu para substituir o legado africano e ameríndio. Quando fizermos, se  fizermos, tais viagens, não será para substituir ou negar, mas para reafirmar a beleza e a profundidade desse legado.

 
Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.

Notas.

(1) Odudua, em alguns mitos, teria criado a terra e Oxalá os seres humanos.

(2) Nanã: orixá de origem jeje incorporado ao panteão nagô, era o ser supremo, a grande mãe, que criou o casal divino gerador da humanidade. O casal divino era Mawu (feminino) e Lissa (masculino) equivalente  ao Oxalá nagô,
      
(3) Exu: o Exu mitológico é um orixá e não uma entidade espiritual qual o exu da umbanda.

(4) Existem vários mitos da criação. Ocorrem também algumas variantes em um mesmo mito; na versão apresentada Oxalá sopra a bolha (Exu), em outros é o próprio Olorun quem o faz.
      Vide As Nações Kêtu (Agenor Miranda Rocha – editora Mauad) e Os Nagô e a Morte (Juana Elbein dos Santos – editora Vozes).

(5) O elemento terra, feminino, está implícito no mito. A lama resulta da combinação água e terra.

(6) O texto sobre a versão hinduísta da criação foi retirado do livro Karma e Dharma (Sandra Galeotti - editora Aquariana).

(7) Os Nagô e a Morte (Juana Elbein dos Santos – editora Vozes).