Nanã é a mais antiga das iabás (1), seu culto parece remontar à pré-história, à idade da pedra, o que mitologicamente se apresenta como uma oposição ferrenha ao orixá Ogun, representante da idade do ferro.
Em algumas regiões jeje, atual República Popular do Benin, Nanã ocupava o lugar de divindade suprema, correspondendo ao Olorun dos nagôs e ao Zambi dos bantos. Quando é incorporada ao panteão nagô, essa antiga e complexa divindade, ocupa lugar destacado, rivaliza com Odudua e Iemanjá, consideradas, dependendo da região nagô, a representação do feminino cósmico. No Brasil Nanã é a suprema manifestação do feminino, do poder gestante, compondo com Oxalá o casal divino que gera toda a criação.
Nanã é a lama, o barro fecundado (por Oxalá, a consciência divina) donde vem todas as coisas criadas e para a qual todas retornarão após a "morte". A forte relação de Nanã com a vida e, acentuadamente, com a morte, faz de Nanã um orixá complexo e muito respeitado, muitas vezes temido. A tal ponto chegou o respeito e o temor a Nanã que muitos sacerdotes evitavam iniciar filhos de Nanã Buruque, acreditando que qualquer falha na iniciação poderia acarretar como castigo, para eles, a morte definitiva (2).
Atribuísse à Nanã e seu filho Ómolu/Obaluaiê o controle de todo processo reencarnatório. Nanã é o São Pedro umbandista, é ela que guarda as chaves do céu, ou seja, do portal entre o mundo dos espíritos e dos encarnados. A relação de Nanã e seu filho Omolu/Obaluiaiê com a vida e a morte, com seus descendentes, especialmente os ancestrais, é profunda e misteriosa, sendo simbolicamente expressa pelos búzios e pelo feixe de nervuras do dendezeiro que compõe o seu cajado ritual, o ibiri.
No ibiri (3) os búzios representam tanto a vida quanto a morte; sua semelhança a um órgão genital feminino o habilita a significar reprodução e nascimento, o seu vazio, a ausência dos moluscos (de vida), nos lembra a morte. A própria saudação ao orixá, Saluba Nanã Buruque (Sálù bá Nàná Burúkú), expressa a relação de Nanã com a morte e o respeito de seus filhos: não literalmente seria, "Nanã nos proteja da morte ruim", o que equivale a "Nanã nos dê uma boa morte".
Aos mais identificados com o esoterismo diríamos que estamos diante da Ísis nagô, ou que, mais corretamente, Ísis seria a Nanã dos egípcios, já que culto à deusa africana precede ao da deusa egípcia.
Senhora dos pântanos, das águas paradas, origem da vida, é também a dona de todos os mistérios da morte. Para os umbandistas é a querida Vovó, a mais antiga e sábia dentre as matriarcas, despertando grande respeito e carinho. De Nanã viemos, a Ela retornaremos e Dela renasceremos.
“Nanã é a terra úmida, portanto a terra irrigada e pronta para gerar. Terra útero, mistério e magia da continuidade da raça humana, considerada matrona da agricultura e da fertilidade dos grãos que nela caem, desenvolvem, crescem, morrem e voltam para a terra quando são absorvidos e renascem em outro grão. Também relacionada com a morte, pois é na terra que os mortos são enterrados, sendo assim, a Vovó indica-nos os renascimentos e continuidade da raça ou do clã familiar”.
(O coletivo feminino na cosmogonia do Universo – Yaskara Manzine).
Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.
Notas.
(1) Iabá: matrona, venerável senhora.
(2) Morte definitiva: Os orixás funfun teriam o poder de fazer a essência espiritual retornar a massa original e, definitivamente, não mais reencarnar.
(2) Morte definitiva: Os orixás funfun teriam o poder de fazer a essência espiritual retornar a massa original e, definitivamente, não mais reencarnar.
(3) Ibiri: principal símbolo de Nanã. Segundo Juana Elbein dos Santos (Os Nagô e a Morte) seria a contração de uma frase em iroubá que em português significaria: "meu descendente o encontrou e trouxe-o de volta para mim". De acordo com os mitos o Ibiri teria nascido juntamente com Nanã. Os búzios e as nervuras do dendezeiro representam as almas ancestrais.

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