Oxalá é a consciência de Olorun criando e se manifestando nos planos mais densos. Nos homens ela é conhecida como o espírito imortal, a centelha ou partícula divina que, através das reencarnações, desperta, se aprimora e marcha de volta, autoconsciente, ao seio de Olorun. Ele é o grande orixá funfun, vocábulo iorubá que significa branco, a cor branca. Seu sentido metafísico, entretanto, é mais abrangente, funfun são os orixás originados diretamente de Olorun. Os funfun antecedem à existência dinâmica e individualizada, ou seja, já existiam antes da manifestação do universo(s). São detentores do poder da criação e estão relacionados à pureza, retidão, paz e aos valores mais nobres. O ar (1), um símbolo da pura energia espiritual, que não vemos e não é tangível, mas é fundamental para nossa existência na terra, é o elemento que representa os funfun.
O opaxorô, seu cajado ritual, uma haste de metal branco que serve de eixo para, normalmente, três discos também de metal branco, é a representação da presença de Oxalá em todos os planos de existência; no divino, nos espirituais e no físico. Os balangandãs que pendem dos discos representam os elementos criados. O opaxorô ainda nos remete às três qualidades de poder que se manifestam através de Oxalá: a já referida consciência divina e os poderes dela gerados; o poder da essência, raiz de toda a matéria, e o elemento dinâmico, o axé, que impulsiona toda a evolução cósmica. É o Pai, o Filho e o Espírito Santo, da tradição judaico-cristã; é Brahma, o criador, Vishnu, o mantenedor e Shiva, o transformador, do hinduísmo; é Guaraci, Jaci e Rudá, da cosmogonia tupi.
Na cosmogonia afro-brasileira esses poderes são personificados por Oxalá, poder gerador, Nanã, poder gestante e Exu, representação de todo elemento procriado, da multiplicidade, das existências individualizadas.
A grandeza de Oxalá, na umbanda, sua condição de pai de toda a criação, de “deuses” e homens, levou a não incorporação de seus falangeiros nos terreiros; entende-se que as vibrações do grande orixá se manifestam através das entidades ligadas aos demais orixás, seus filhos, que são canais de seus atributos.
A paternidade divina de Oxalá está alegórica e singelamente retratada em um mito nagô que narra como Oxalá, devido à inveja de alguns homens, vítima de uma emboscada, foi feito em pedaços e desses pedaços nascem os orixás. O vocábulo orixá, inclusive, seria a contração da frase Ohun ti a ri sà, em português “O Que foi achado e juntado” (2).
Toda a evolução da consciência, em todos os reinos da natureza, está subordinada ao grande orixá. É o senhor do ciclo evolutivo do universos, cujo início é representado mitologicamente por Oxaguiã, Oxalá jovem e destemido, e por Oxalufã, personificação da maturidade, da calma e da sabedoria.
Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.
Notas.
(1) Embora o ar seja o elemento mais representativo dos orixás funfun, no mito da criação referenciado anteriormente, a água alí aparece como elemento masculino (fecundante).
(2) Vide Òrun Àiyé (O Encontro de Dois Mundos), livro de José Beniste.

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