Os orixás são a expressão dos atributos de Olorun e Dele foram gerados. Os orixás denominados funfun, orixás do branco, foram diretamente criados por Olorun, os demais, orixás descendentes, nasceram das interações entre as energias emanadas dos funfun, aqueles que receberam o poder da criação.
Oxalá é um dos mais conhecidos e importantes orixás do branco, entre os nagôs, em África, juntamente com Odudua, outro funfun, que em muitos mitos aparece como sua contraparte feminina, é o responsável pela criação da terra e dos seres humanos (1). No Brasil, especialmente na umbanda, o lugar de Odudua, é ocupado por Nanã Buruque (2), que, juntamente com Oxalá e Exu (3), numa reelaboração da gênese nagô, compõe a trindade criadora. Por conta disso, ao reproduzirmos elementos da mitologia nagô, nestes, Nanã estará sendo referenciada no lugar de Odudua.
Um dos mitos da criação da terra (4), dos mais conhecidos, assim se inicia:
“No começo só existia Olorun, uma imensa e imóvel massa de ar. Olorun movimenta-se e do seu movimento nasce uma massa de água, é Oxalá. Olorun continua seu movimento soltando o seu sopro, e desse ar e da água surge a lama. Da lama nasce uma bolha. Oxalá encantou-se com a beleza da bolha e soprando sobre ela fez nascer o primeiro ser criado, Exu Iangui".
A imobilidade de Olorun representa o estado que antecede a criação, quando tudo existe apenas potencialmente em Deus. A massa de ar se move iniciando o processo de expansão e multiplicação a partir da unidade. É o “fiat lux” nagô: Oxalá, a água, é a consciência divina que fecundando a terra (5), matéria primordial, faz surgir à lama, da qual tudo e todos nascerão. O espírito se manifesta através das formas.
Três orixás estão presentes no inicio do mito; Oxalá o poder gerador, Nanã (representada pela terra/lama), o poder gestante, e Exu, o elemento procriado. A partir da união entre Oxalá e Nanã (consciência e matéria raíz) que provoca a expansão universal (Exu), nascem os demais orixás, cada um representando um atributo divino: Ogun é a vontade divina que dá a direção e garante a ordem do processo evolutivo; Xangô é a lei que rege a evolução; Iemanjá é a vida divina que anima toda a criação; Oxum é a manifestação do amor divino e assim por diante.
Julgamos conveniente, para uma análise comparativa, apresentar a visão hinduísta da gênese (6), que os intelectuais de umbanda julgaram infinitamente superior aos conceitos nagôs:
"Na noite de Brahman, o Absoluto, as águas da Vida permanecem em Pralaya (repouso). O Absoluto É. Contudo vibra eternamente. Após 4.320.000.000 de anos solares, o Grande Cisne Hamsa (o Ser Consciência-Inteligência), desliza sobre O Grande Oceano da Vida, separando suas águas. O néctar separa-se das águas primordiais e surgem Purusha e Prakriti (consciência cósmica e substância raiz que formará todos os mundos). Purusha e Prakriti unem-se e o Universo inicia sua dança espiralada".
Acreditamos que a similitude entre as duas concepções dispensa comentários, entretanto, gostaríamos de chamar a atenção para "dança espiralada", na versão hinduísta, representando a expansão e a evolução cósmica, e Exu, na versão nagô, simbolizando o mesmo processo. Um dos símbolos mais importantes de Exu na cultura nagô é o okoto, espécie de caracol que Juana Elbein dos Santos (7) assim define:
“O Òkòtó simboliza um processo de crescimento. O Òkòtó é o pião que apoiado na ponta do cone – um só pé, um ponto de apoio – rola “espiraladamente” abrindo-se a cada evolução, mais e mais, até converter-se numa circunferência aberta para o infinito (cume oco)".
Nossos estudos se basearão na reelaboração, no Brasil, dos mitos nagôs. Não viajaremos no tempo ou no espaço para a Lemúria, Atlântida, Índia, Grécia antiga ou até escolas iniciáticas do esoterismo europeu para substituir o legado africano e ameríndio. Quando fizermos, se fizermos, tais viagens, não será para substituir ou negar, mas para reafirmar a beleza e a profundidade desse legado.
Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.
Notas.
(1) Odudua, em alguns mitos, teria criado a terra e Oxalá os seres humanos.
(2) Nanã: orixá de origem jeje incorporado ao panteão nagô, era o ser supremo, a grande mãe, que criou o casal divino gerador da humanidade. O casal divino era Mawu (feminino) e Lissa (masculino) equivalente ao Oxalá nagô,
(3) Exu: o Exu mitológico é um orixá e não uma entidade espiritual qual o exu da umbanda.
(4) Existem vários mitos da criação. Ocorrem também algumas variantes em um mesmo mito; na versão apresentada Oxalá sopra a bolha (Exu), em outros é o próprio Olorun quem o faz.
Vide As Nações Kêtu (Agenor Miranda Rocha – editora Mauad) e Os Nagô e a Morte (Juana Elbein dos Santos – editora Vozes).
(5) O elemento terra, feminino, está implícito no mito. A lama resulta da combinação água e terra.
(6) O texto sobre a versão hinduísta da criação foi retirado do livro Karma e Dharma (Sandra Galeotti - editora Aquariana).
(7) Os Nagô e a Morte (Juana Elbein dos Santos – editora Vozes).
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