segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sudaneses, bantos e a umbanda: a filha mestiça.

     Entre fins do século XVIII e meados do século XIX, quando chegam os jejes e os nagôs à Bahia, antiga capital do reino, a existência, em Salvador, de uma razoável estrutura urbana e o emprego dos negros em trabalhos domésticos ou de ganho, longe dos engenhos e das minas, assim como sua reunião em confrarias católicas para “pretos”, por “nação” de origem, e a permissão de batuques, também por “nação”, especialmente no governo do Conde dos Arcos (1),  facilitam a recriação do culto aos seus deuses no Brasil. Conspiraram a favor dos sudaneses o ambiente e a época, permitindo-lhes, além de recriar seus cultos, criar uma estrutura templo-convento (candomblé), onde podiam inciar seus eleguns (2). Já os bantos, desde o início da colonização, espalhados por todo o território nacional (em plantações), sob o olhar e a chibata do feitores, não tiveram as mesmas oportunidades, restando-lhes, quando passam a gozar de maior liberdade para organizar-se, adaptar o modelo jeje-nagô (3) ao seu universo religioso.
     Pesquisadores menos atentos e apressados, ignorando a desvantagem circunstâncial dos bantos, viram na adaptação da estrutura jeje-nagô um sinal de inferioridade cultural, idéia reforçada pela utilização, nas casas banto e banto-ameríndias, de vocábulos, expressões e outros elementos sudaneses. Ora, nos parece perfeitamente normal que em um modelo adaptado, pelas razões já citadas, estejam presentes elementos do modelo original. Contudo, a teoria da inferioridade cultural dos bantos em relação aos sudaneses, concebida por Nina Rodrigues (4), influenciou pesquisadores respeitados como Edson Carneiro, Artur Ramos e os franceses Roger Bastide e Pierre Verger. Os cultos bantos e banto-ameríndios, destacamende a umbanda, para esses autores, não passavam de uma cópia empobrecidada do modelo jeje-nagô.
     Hoje, devido a pesquisas mais criteriosas e isentas, a teoria da inferioridade cultural dos bantos, diante da supremacia banta na formação da cultura e identidade nacional, está relegada ao que sempre foi, um engano provocado pelo olhar desatento ou preconceituso de alguns autores. A umbanda, porém, ainda sofre os efeitos desse olhar equivocado e precenceituoso. Não mais um olhar vindo do meio acadêmico, mas do próprio universo afro-brasileiro, lembrando uma filha mestiça discriminada pelas raças que a geraram.

Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.

Notas.

(1) Conde dos Arcos: Dom Marcos de Noronha e Brito governou a Bahia entre 1810 e 1817. Para alguns foi liberal e modernizador, para outros maquiavélico; reunindo os negros por "nação" de origem estimulava rivalidades, evitavando sua unidade.

(2) Eleguns: aqueles que podem ser montados (possuídos), sacerdotes que recebem as vibrações das divindades. Provavelmente a expressão umbandista "cavalo" foi influenciada pelo conceito de elegun, "aquele que pode ser montado".

(3) Jeje-nagô: Embora o candomblé tradicional de origem nagô tenha sido o modelo adpatado pelos bantos, o intercâmbio entre os jejes e os nagôs, na Bahia, produziu uma cultura religiosa denominada, pelos cientistas sociais, jeje-nagô. Assim como na umbanda registramos vários vocábulos e expressões nagôs, nos candomblés nagôs ocorrem vocábulos e costumes jejes.

(4) Nina Rodrigues: o maranhense Nina Rodrigues, considerado o fundador da antropologia cirminal brasileira, pioneiro no estudo das culturas negras no Brasil, via no negro e na miscigenação as principais  causas de nosso "atraso" cultural.  Se era preconceituoso em relação a todos os negros, mais o era em relação aos bantos, por ele considerados culturalmente inferiores aos sudaneses.

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