terça-feira, 24 de maio de 2011

Umbanda, o culto e a presença dos ancestrais nos terreiros.

     No século XVI quando os bantos, especialmente os angolas e congos, chegam ao Brasil, trazidos pela escravidão, a necessidade de conhecer as propriedades mágico-terapêuticas de nossas folhas, ervas e raízes, leva seus kimbandas (1) e ngangas (2), sacerdotes e médicos rituais, a se aproximarem dos pajés, e desse encontro de saberes mágico-medicinais, como vimos em "Sobre as origens da umbanda", nasce uma arte de curar popular brasileira e um sagrado comum onde habitam deuses e espíritos ancestrais das duas raças. Na umbanda, filha mais famosa e grande herdeira da religiosidade banto-ameríndia, encontramos a arte e o sagrado comum legados e representados por espíritos ancestrais de curandeiros e benzedeiros, de cuja presença e destaque em nossa história há registros desde o século XVII, havendo mesmo registro de suas participações, dois séculos depois, no combate a crises epidêmicas, como relata Renato da Silveira (3) no artigo “Do Calundu ao Candomblé” (01/12/2005), editado pela Revista de História da Biblioteca Nacional.
    O papel dos ancestrais, relevante em todas as culturas africanas, nos cultos bantos e banto-ameríndios, tem uma característica que os distingue dos cultos nagos; no universo sagrado banto-ameríndio o ancestral intermedeia as relações entre os homens e as divindades, corpartinhando com elas o mesmo local de culto, enquanto nos cultos de influência nagô, deuses e ancestrais são cultuados separadamente, cada um em seu espaço sagrado. Essa característica dos cultos banto-ameríndios tem sido considerada uma heresia, uma quebra de tabu, por aqueles que desconhecem as tradições bantos e ameríndias e consideram correta apenas a tradição nagô, um reflexo da já citada teoria da inferioridade cultural banto e banto-ameríndia. Nada mais injusto e equivocado, fruto da ignorância e do preconceito, com uma tradição que ainda hoje está presente em países de origem banto como Moçambique, onde os ancestrais, através de árvores sacralizadas, baobás, ascendem ao mundo espiritual e descem ao plano físico para traduzir a vontade das divindades, orientar e resolver os vários problemas da conunidade, sejam espirituais ou materiais. O que levou, em 2005, segundo matéria de Vera Saavedra Durão para o jornal Valor Econômico (04/01/2008), à necessidade de cerimônia para pedir permissão aos ancestrais, quando a empresa Vale inciaria um projeto para exploração de carvão em Moatize, Moçambique, visto que no local haviam vários baobás sacralizados.
     Um mito de origem banto, como todos os mitos, justifica essa intermediação dos ancestrais entre deuses e homens narrando a seguinte história: o filho de um rei banto, após a morte do pai, o único que sabia interpretar o desejo dos deuses, incapaz de ouví-los, para orientar seu povo, invoca o espirito paterno suplicando que este se manifestasse e viesse socorrê-lo. O espirito do rei se manifesta e, então, de tempos em tempos, desce ao mundo dos homens para representar os deuses, orientando e tratando de todas as mazelas do povo. Interessantíssimo e significativo é que, em város grupos indígenas, no Brasil, os acestrais também são enterrados aos pés de uma árvore sagrada, a jurema, que, como o baobá em África, é o portal que possibilita, através dos ancestrais, a comunicação entre o sagrado e os homens.
    Na umbanda, pois, filha de culturas bantos e ameríndias, o cruzeiro das almas (4), representação coletiva dos ancestrais, no mesmo espaço sagrado destinado ao culto aos orixás, e a presença de caboclos, pretos velhos e demais entidades, manifestações individualizadas de nossos ancestres, é tradição justificada e imaculada, o que não se pode dizer em relação às opiniões dos "puristas" desinformados e preconceituosos que se "chocam" ou desdenham a manifestação de "eguns" (5), nossas entidades, no espaço sagrado em que cultuamos orixás. 

Jorge Luiz S. Bastos.
Colaboração Priscila Siqueira Lemos.

Notas.

(1) Kimbanda: sacerdote e médico ritual dos angolas. Palavra da língua kimbundo, falado pelos bundos, grupo étnico angolano.

(2) Nganga: correspondente entre os congos ao Kimbanda.

(3) Renato da Silveira: professor da Universidade Federal da Bahia (UFBa), doutor em antropologia pela École de Hautes Études em Sciences Sociales de Paris.

(4) Cruzeiro das almas: lápide de mármore, madeira ou outros materias, geralmente com três degraus, encimada por uma cruz, aos pés da qual os crentes umbandistas ofertam e acendem velas.  É herança da devoção, no catolicismo popular português, às almas santas e benditas. Na umbanda é a representação coletiva dos ancestrais.

(5) Egun: almas dos ancestrais que voltam à terra em determinadas ocasiões. Na tradição nagô os eguns têm culto próprio, jamais se manifestando no espaço sagrado destinado aos orixás.
     Embora nem todas as entidades que se manifestem na umbanda sejam eguns, ou seja, espíritos que passaram por encarnação no plano físico, os leigos consideram-nas todas eguns. Alguns umbandistas têm o mesmo entendimento, geralmente devido à influências da doutrina espírita, para a qual todas as entidades pertencem à cadeia evolucional humana.

Um comentário:

  1. muito bom os textos, parabéns!!! estou no aguardo dos próximos!!!!

    ResponderExcluir